terça-feira, 29 de dezembro de 2015

domingo, 22 de novembro de 2015

Constatação


Os pássaros crescem,
emudecem e somem.
Cessa a suavidade dos voos.
A vida é um choque sobre
o arco invisível dos ventos.

M.Cendón




foto: Marga Cendón 

sábado, 21 de novembro de 2015

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Quem se importa?

“Superfeliz”, diz ensaiando um sorriso para a selfie no espelho. Enquanto isso, a tal da Dona Verdade, a quem sequer foi apresentada, passa longe em seu traje de gala e toma a direção contrária. E aquela que nunca a abandona, Dona Hipocrisia, chama para uma valsa. Aceita, claro! Afinal, tem sido uma boa companhia nesses últimos tempos, seria grosseiro recusar. Coloca uma pedra sobre o que perturba e esfrega uma borracha nas sobras deixando intacta sua versão dos fatos. Quando fecha os olhos, vem o desconforto do travesseiro. Os sonhos, antes leves, tornam-se obesos, carregados de corredores sem portas. Mas quem se importa? Impressionar é a ordem do dia.

- açúcar?


-não, obrigada! 


M.Cendón 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Trégua


Pouso
não é abandono de voo.
É trégua
antes da mudança
dos rumos.

M.Cendón 


foto: Marga Cendón

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Avesso


Ser vento
chuva
temporal
ser sal e não sentir
ser amor
sem escorrer o mel
ser o fel da flor 


M.Cendón 


foto: Deniz Senyezil (Turquia)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Revelação


Houve um tempo em que tudo parecia perfeito e podíamos nos dar o luxo de olhar apenas para o próprio umbigo. E isso nos resumia e justificava. Mas quando o mundo desabou à nossa volta, descobrimos outros umbigos precisando do nosso olhar. E desde então nunca mais fomos os mesmos. 

M.Cendón


foto: Marga Cendón

domingo, 18 de outubro de 2015

Déjà vu



O tempo transforma você em saudade. Depois em silêncio. Por último, dormência. Até que uma sensação inexplicável traz você de volta. Num perfume, numa frase ou numa canção antiga. Mas não chega a ser lembrança... Você é o "déjà vu" do outro.



M.Cendón


imagem: page Donne Imperfette

Claridade



Espio pelo vão dos dedos
A luz artificial atravessar o vidro
E violar a essência das coisas
Sem tocar no silêncio.


M.Cendón

imagem: page Donna Imperfette

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Ser pássaro


Um dia, faz tempo, quis ser flor, mas descobriu que não levava jeito pra isso - Ficar presa a um canteiro pelo resto da vida? - Faltava-lhe paciência na espera das estações e os perfumes causavam alergia. Foi então que resolveu ser pássaro.  

M.Cendón

foto: Marga Cendón

sábado, 10 de outubro de 2015

Amanhã... Sem falta

Todo dia, quando descia do ônibus, ele a observava de longe.  Ela atrás do balcão, lenço no cabelo, boca pintada, mãos cobertas de anéis e pulseiras e o sorriso de orelha a orelha que não saía da cara. Nem parecia a mesma. Com ar de proprietária, dava ordens às atendentes e depois voltava a folhear uma revista, esquecida de tudo que tinham vivido. Era uma Ingrata! Como podia tê-lo trocado pelo turco do armarinho? Logo ele que em todos aqueles anos a cobrira de dengos e trabalhara duro pra manter seus luxos. Contava os trocados para flores em datas especiais, economizava no cigarro para leva-la ao cinema, bancava jantar no bar do Bolão uma vez por semana, com direito a jarrinha de vinho e taças de vidro, tudo conforme ela gostava. Voltava a pé do trabalho para trazer “diamante negro” com o dinheiro da passagem. Lavava panelas, limpava banheiro, dava de comer aos gatos e depois a amava como a uma rainha.  E nada era o bastante. Emerenciana sempre queria mais.


Quando ela se foi a casa restou vazia e a vida perdeu o sentido. Nem os gatos ficaram. Decidiu então que queria morrer. Pensou em se enforcar, enfiar uma faca no peito, se jogar na frente de um trem, mas desistiu. Como suportaria o sofrimento se algo saísse errado? Tinha que ser um tiro certeiro. Mas de onde tirar uma arma? Se pedisse a alguém, desconfiariam e logo viria a turma do “deixa-disso”. Roubar, não tinha coragem. Deitado sozinho na bagunça da cama tentava achar solução. Estava difícil até para morrer. Estendeu a mão, acariciou o vazio no travesseiro dela e limpando uma lágrima resmungou: “amanhã sem falta eu subo o morro, Emerenciana... Lá, se não vier bala de um lado, é certo que vem do outro”.   

M.Cendón 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Anônima


"só a mulher entre as coisas envelhece" - diz Adélia Prado em Serenata - mas eu, que sempre fui doida e santa ao mesmo tempo e assaltada de decisão, abro a janela, chego ao balcão e torço que a lua não ilumine meu rosto. E assim, anônima, ouço a voz macia daquele velho moço dos olhos doces que canta no meu jardim. "hoje o céu está tão lindo...”. 


M.Cendón


foto: Marga Cendón

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O que cabe nas palavras



Todo afastamento cabe na palavra distância e toda distância cabe na palavra saudade e toda saudade cabe na história da gente. Nem sempre consegui voltar aos meus escombros e reatar o fio daquela meada de tecer destinos que o vento levou quando se impôs sobre meus voos. E toda vez que meu pouso se deu em outras paragens, muito longe do ninho, essas palavras estiveram comigo. Mas nem toda saudade cabe na palavra tristeza e nem toda tristeza cabe na história da gente. Há sempre um resto de beleza guardado na memória. Um cheiro, um gosto, uma música, um verso que me devolve e me resgata.  E o meu coração se aquieta na luz do sol sobre o rio.


M.Cendón


foto: Constantine Manos (1962)

O vazio ao lado


Mortas as palavras, garganta seca, restava esperar que a escuridão os conduzisse ao sono. Era quase verão e a desesperança tinha atravessado três estações para chegar ao limite do cansaço. E sendo a realidade das faces comprometedora e demasiado fria, deram-se as costas para o equilíbrio da estranha balança que os sustentava. Já não eram senão o vulto opaco que o tempo tatuara na memória; um copo pela boca à espera da última gota. E o silêncio, a pesar sobre os pesares.
Mas naquela noite, instante suspenso de uma tormenta, algo incomum atravessou os anteparos. Desvelada, a dormência se fez movimento e em busca de trégua, navegou os lençóis. O coração disparou, faltou o ar, sumiu o chão. E como náufragos, boiaram sob o céu constelado em busca de um único gesto que os salvasse. As mãos, até então recolhidas, deslizaram. Pétala de delicada textura, a pele cedeu aos afagos. E o vazio ao lado se dissipou. 


M.Cendón 


foto: Marga Cendón 

Insônia


A noite ultrapassava a primeira metade e logo viriam os ruídos da rua, o vai e vem das calçadas, a cidade retomada em suas cores habituais. Encolhida nas cobertas esperava pelo sono. Nada! Deteve-se então aos ponteiros do despertador na mesinha de cabeceira: tudo se modificava ao passo das horas menos aquela circularidade que os mantinha prisioneiros desde a invenção dos relógios. Pensou nas próprias redomas. Viu-se andando, andando e voltando ao mesmo ponto. Acariciava saudades, remoía memórias... Mas não tinha a perenidade dos ponteiros. Eles seguravam-se ao tempo... Ela? Escorria pelo furo dos instantes. 


M.Cendón 


foto: Maurício Cendón Avila

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Entre mil outros


Naquele dia, algo diferente moveu-se na contraluz do fim da tarde, hora em que os fantasmas, misteriosamente, tomavam conta da varanda. Não era a brisa de maio sacudindo os eucaliptos que margeavam o caminho, nem sonho, miragem ou fruto do delírio de proximidade que há muito lhe roubara o sono. Apurou a vista em direção ao vulto e de longe reconheceu o passo. Cansada das lições de espera impostas pelo silêncio, correu ao seu encontro. Cerrou as pálpebras e, como cega, tocou-lhe a face com a palma das lembranças. A barba por fazer e os sulcos que o tempo havia desenhado não confundiram as pontas dos seus dedos. Ela o reconheceria, entre mil outros, ainda que mil anos os tivessem separado.


M.Cendón 

foto: Marga Cendón 

Feito pássaros


Dobrou com o cuidado de quem manuseia uma peça de cambraia francesa e trancou, na última gaveta da cômoda, as palavras não ditas. Nada havia para ser dividido com o olhar avesso do outro, embora quisesse ter acreditado que sim. Sabia agora o que negara pelo desejo de sentir-se parte de algo que só existiu dentro dela, em sua visão distorcida sobre as coisas do amor. Guardou a chave em lugar seguro. Talvez, em outro tempo, servissem a outra pessoa. Mas se as dissesse antes da hora, se perderiam como pássaros tristes em tardes de temporal. 


M.Cendón  


foto: Marga Cendón

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O outro lado do abismo


A sensação de “nunca mais” me atropela, fecha a cortina, apaga a última estrela. O gris anula cores, encobre o céu, desbota os pássaros. E assim como não me podes ver eu também não te enxergo. Queria ter escrito versos que brilhassem no escuro e animassem teu corpo antes do frio... A mão treme, o pensamento divaga, a palavra trava no peito. E já não somos. Mas é certo que fomos. Tão certo quanto o silêncio que não me deixa dormir. Quem sabe um dia a distância amorteça e eu retome, por um ligeiro instante, a engenharia mágica de construir pontes para o outro lado do abismo. Algum lugar onde teu poema toque meu ombro com a ponta das asas. Então talvez - e só talvez - eu me resgate da tua ausência. 


M.Cendón 

foto: Dorival Moreira 


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Regresso


Na minha rua tinha um beco. Os pombos da minha rua debatiam-se quando algum estouro ecoava no beco. Abrigavam-se no telhado da igreja pedindo socorro. Os velhos da minha rua traziam migalhas nos bolsos, davam de comer aos pombos e no beco, a passos lentos, arrastavam sonhos subvertidos pelos anos. Os meninos da minha rua andavam em bando, espantavam os pombos, irritavam os velhos; jogavam Taco no beco. Quando voltei, os velhos tinham partido. E os meninos, crescido. E um imenso prédio havia surgido no vão do beco. Daquele tempo, só os pombos continuam no telhado da igreja. Atordoados pelo barulho das construções.  



M.Cendón


foto da postagem: Marga Cendón (Brasil)

sábado, 15 de agosto de 2015

O tempo do poema


Não importa a chuva, o frio, o vento. Nada lá fora muda o instante de aconchego em que um poema aninha seus versos nas linhas do papel. E faz da palavra o leito, e cobre-se de sonoridade. Dou a ele o tempo do sossego. E desperto, amadurece em mim.


M.Cendón

imagem: Praia do Silveira, Garopaba, SC
foto: Marga Cendón (Brasil)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gesto



O que encantava, não era a flor no copo d'água ao lado da cama, mas a intenção do agrado. Aquele olhar apurado sobre a delicadeza... Alguma coisa velada que as mãos não tocavam e que, no entanto, fazia todo o sentido. Como as entrelinhas na tecitura de um poema. 



M.Cendón


foto da postagem: Marga Cendón (Brasil)


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Um trem para qualquer lugar


Desceu a rua, passou pelo museu, atravessou em direção à estação. Estava adiantada quase duas horas. Pediu um expresso no balcão do bar. Catou o celular na bolsa. Duas ligações de Olavo. Ele nunca a deixaria em paz? Trocaria o número assim que desembarcasse. Àquelas alturas já tinha lido a carta que ela deixara no quadro de recados da cozinha. Se bem o conhecia, estava dando murros nas paredes. Olavo não era violento. Não com ela. Mas tinha lá seus descontroles. Um homem possessivo que a enchia de mimos para comprar sua submissão. Antes do casamento, Maria Tereza tinha planos de publicar um livro de crônicas e investir na carreira jornalística, mas Olavo a convencera de que era um sonho sem futuro e por comodidade, ela cedeu. Agora estava decidida: queria retomar seus planos. E mais que tudo, queria distância de Olavo. 
E Luiz Antônio que não chegava? Era cedo ainda. Faltava uma hora para o último trem e o trânsito estava calmo. Buscou no celular a foto dele, clicada no último encontro. Sorria. Ela retribuiu como se ele a pudesse ver. Tudo a encantava naquele homem: o jeito pausado de falar, o meio tom da voz, a elegância, a discrição; o humor sempre pronto a fazê-la gargalhar.  Amante intenso, ele dedilhava sua pele com a maestria de quem conhecia todos os caminhos. Nenhum outro a fizera experimentar tal plenitude. Foi por acaso que se conheceram numa livraria-café na Porta do Sol.  Ela folheava um livro de Juan Ramón Jimenez e ele, gentil, aconselhou-a que levasse. Assim começaram uma conversa sobre outros autores. Foi para casa pensando nele. Voltou lá no outro dia. Sentaram na mesma mesa. Naquele e em todos os outros dias daquela primavera. Depois vieram os encontros no apartamento de um amigo dele na Calle de las Huertas. 
Luiz Antônio tinha uma esposa de quem quase nunca falava a não ser para deixar claro que o casamento já afundara fazia tempos. Amor mesmo, só por ela, Maria Tereza. Ela nada perguntava. Mas falava de Olavo, se queixava. Ele ouvia calado e depois a abraçava com ternura espantando os fantasmas daquele quarto emprestado. 
A ideia de uma vida juntos partira dele. No começo Maria Tereza teve medo. Depois teve dúvidas. E logo veio a certeza de que ele era o único homem com quem queria estar.  A vida ao seu lado seria bem diferente da que levava com Olavo. 
Olhou o relógio da estação. Faltava ainda meia hora. Saiu. Abriu a bolsa, apanhou o espelho, limpou o excesso de batom. Acendeu um cigarro. E esperou. Vinte minutos. Luiz Antônio Já deveria ter chegado. Vai ver teve problemas no trabalho, era seu último dia na redação. Correu os olhos pela rua. Nada! Sete minutos. Não. Ele não vinha. O trem tão esperado partiria sem eles. Não a amava. Devia estar em casa com a família, o mundinho perfeito onde todas as coisas se encaixavam. E ela ali, tentando evitar uma lágrima teimosa. Era o fim. E sequer tinha para onde ir. Jamais voltaria para Olavo e aquela vida sem brilho. 
Apagou o cigarro com a ponta da bota. Correu para a saída. Precisava de algum lugar seguro para chorar. Nada mais fazia sentido. A multidão aglomerava-se à porta da estação para fugir da chuva. E antes que pudesse ultrapassa-la, alguém a segurou pelo braço. Voltou-se assustada tentando se livrar.
Ele sorriu.
Ela tremeu

E o alto-falante anunciou a última chamada para o trem. 


M.Cendón

(Publicado no jornal impresso do Centro de Letras de Paranaguá)  



foto: Dorival Moreira (Brasil)

terça-feira, 28 de julho de 2015

O avesso da pluma


Quando percebo o brilho viscoso da vaidade e o rufar de asas falsas e o canto sedutor, penso que todos os dias somos capazes de criar monstros. Mesmo quando a intenção é a de criar pássaros. 


M.Cendón

imagem: Cascais, Portugal - 09/05/2015 
foto de Marga Cendón (Brasil)

sábado, 25 de julho de 2015

Captura do voo


O magnífico na fotografia é que você pode capturar um sonho em pleno voo.


M.Cendón



foto: Marga Cendón (Brasil)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pelas ruas


Estou só e não estou. Ando pela alameda que margeia o rio e a paisagem me retém.  Por alguns instantes, sou parte das pontes e das paredes dos velhos edifícios. Numa esquina, um homem magro de olhos profundos traz uma canção do passado – “La bohème, la bohème Ça voulait dire on est heureux” - Sigo cantando. A cidade é imensa e há muito a percorrer. O museu, a catedral, a torre. Encho os olhos nas elegantes vitrines da avenida mais famosa do mundo. O Arco marca o fim do caminho e tomo outra via. A rua vai se estreitando e das sacadas, pendem gerânios coloridos. É primavera e o vento anuncia a proximidade da noite. “Bonjour! Place de Clichy, s'il vous plaît”, digo gastando meu repertório enquanto ajeito o cinto de segurança. As luzes começam seu espetáculo, tudo se enche de brilho. Estou só e não estou... A bordo de um táxi, minha mão se aquece entre as mãos do meu amor. 


M.Cendón




(Publicado no jornal Leôncio do Centro de Letras de Paranaguá. PR)

Place de Clichy, Paris. 24 de maio de 2015  
foto: Marga Cendón (Brasil)