segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Anônima


"só a mulher entre as coisas envelhece" - diz Adélia Prado em Serenata - mas eu, que sempre fui doida e santa ao mesmo tempo e assaltada de decisão, abro a janela, chego ao balcão e torço que a lua não ilumine meu rosto. E assim, anônima, ouço a voz macia daquele velho moço dos olhos doces que canta no meu jardim. "hoje o céu está tão lindo...”. 


M.Cendón


foto: Marga Cendón

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O que cabe nas palavras



Todo afastamento cabe na palavra distância e toda distância cabe na palavra saudade e toda saudade cabe na história da gente. Nem sempre consegui voltar aos meus escombros e reatar o fio daquela meada de tecer destinos que o vento levou quando se impôs sobre meus voos. E toda vez que meu pouso se deu em outras paragens, muito longe do ninho, essas palavras estiveram comigo. Mas nem toda saudade cabe na palavra tristeza e nem toda tristeza cabe na história da gente. Há sempre um resto de beleza guardado na memória. Um cheiro, um gosto, uma música, um verso que me devolve e me resgata.  E o meu coração se aquieta na luz do sol sobre o rio.


M.Cendón


foto: Constantine Manos (1962)

O vazio ao lado


Mortas as palavras, garganta seca, restava esperar que a escuridão os conduzisse ao sono. Era quase verão e a desesperança tinha atravessado três estações para chegar ao limite do cansaço. E sendo a realidade das faces comprometedora e demasiado fria, deram-se as costas para o equilíbrio da estranha balança que os sustentava. Já não eram senão o vulto opaco que o tempo tatuara na memória; um copo pela boca à espera da última gota. E o silêncio, a pesar sobre os pesares.
Mas naquela noite, instante suspenso de uma tormenta, algo incomum atravessou os anteparos. Desvelada, a dormência se fez movimento e em busca de trégua, navegou os lençóis. O coração disparou, faltou o ar, sumiu o chão. E como náufragos, boiaram sob o céu constelado em busca de um único gesto que os salvasse. As mãos, até então recolhidas, deslizaram. Pétala de delicada textura, a pele cedeu aos afagos. E o vazio ao lado se dissipou. 


M.Cendón 


foto: Marga Cendón 

Insônia


A noite ultrapassava a primeira metade e logo viriam os ruídos da rua, o vai e vem das calçadas, a cidade retomada em suas cores habituais. Encolhida nas cobertas esperava pelo sono. Nada! Deteve-se então aos ponteiros do despertador na mesinha de cabeceira: tudo se modificava ao passo das horas menos aquela circularidade que os mantinha prisioneiros desde a invenção dos relógios. Pensou nas próprias redomas. Viu-se andando, andando e voltando ao mesmo ponto. Acariciava saudades, remoía memórias... Mas não tinha a perenidade dos ponteiros. Eles seguravam-se ao tempo... Ela? Escorria pelo furo dos instantes. 


M.Cendón 


foto: Maurício Cendón Avila

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Entre mil outros


Naquele dia, algo diferente moveu-se na contraluz do fim da tarde, hora em que os fantasmas, misteriosamente, tomavam conta da varanda. Não era a brisa de maio sacudindo os eucaliptos que margeavam o caminho, nem sonho, miragem ou fruto do delírio de proximidade que há muito lhe roubara o sono. Apurou a vista em direção ao vulto e de longe reconheceu o passo. Cansada das lições de espera impostas pelo silêncio, correu ao seu encontro. Cerrou as pálpebras e, como cega, tocou-lhe a face com a palma das lembranças. A barba por fazer e os sulcos que o tempo havia desenhado não confundiram as pontas dos seus dedos. Ela o reconheceria, entre mil outros, ainda que mil anos os tivessem separado.


M.Cendón 

foto: Marga Cendón 

Feito pássaros


Dobrou com o cuidado de quem manuseia uma peça de cambraia francesa e trancou, na última gaveta da cômoda, as palavras não ditas. Nada havia para ser dividido com o olhar avesso do outro, embora quisesse ter acreditado que sim. Sabia agora o que negara pelo desejo de sentir-se parte de algo que só existiu dentro dela, em sua visão distorcida sobre as coisas do amor. Guardou a chave em lugar seguro. Talvez, em outro tempo, servissem a outra pessoa. Mas se as dissesse antes da hora, se perderiam como pássaros tristes em tardes de temporal. 


M.Cendón  


foto: Marga Cendón

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O outro lado do abismo


A sensação de “nunca mais” me atropela, fecha a cortina, apaga a última estrela. O gris anula cores, encobre o céu, desbota os pássaros. E assim como não me podes ver eu também não te enxergo. Queria ter escrito versos que brilhassem no escuro e animassem teu corpo antes do frio... A mão treme, o pensamento divaga, a palavra trava no peito. E já não somos. Mas é certo que fomos. Tão certo quanto o silêncio que não me deixa dormir. Quem sabe um dia a distância amorteça e eu retome, por um ligeiro instante, a engenharia mágica de construir pontes para o outro lado do abismo. Algum lugar onde teu poema toque meu ombro com a ponta das asas. Então talvez - e só talvez - eu me resgate da tua ausência. 


M.Cendón 

foto: Dorival Moreira 


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Regresso


Na minha rua tinha um beco. Os pombos da minha rua debatiam-se quando algum estouro ecoava no beco. Abrigavam-se no telhado da igreja pedindo socorro. Os velhos da minha rua traziam migalhas nos bolsos, davam de comer aos pombos e no beco, a passos lentos, arrastavam sonhos subvertidos pelos anos. Os meninos da minha rua andavam em bando, espantavam os pombos, irritavam os velhos; jogavam Taco no beco. Quando voltei, os velhos tinham partido. E os meninos, crescido. E um imenso prédio havia surgido no vão do beco. Daquele tempo, só os pombos continuam no telhado da igreja. Atordoados pelo barulho das construções.  



M.Cendón


foto da postagem: Marga Cendón (Brasil)