sábado, 3 de setembro de 2016

Depois do Temporal

“Essa é das brabas”, resmungava a tia solteirona. “É São Pedro arrastando cadeiras”. Iniciavam então os rituais: espelhos cobertos com toalhas, cruz de sal, nacos de sabão no telhado. E para Santa Bárbara, velas e rezas fervorosas. “Tomara passe logo e não faça muito estrago”.

As nuvens apagavam a tarde e o céu parecia uma imensa chapa sobre o quintal.  Impossível andar lá fora. Pelo desenho dos dedos na vidraça embaçada, espiava o balanço girando sozinho. “É o vento brincando no cinamomo”. Mas o bolinho de chuva e o café coado na hora, compensavam o confinamento.

À volta da mesa, as mulheres falavam ao mesmo tempo. Cheiro de revista nova sendo folheada e passada de mão em mão. Em sua poltrona, o avô cochilava e, vez ou outra, despertava em sobressaltos pela algazarra. Ao lado, o gato lhe fazia companhia. Abria um olho, esticava uma pata e voltava a encolher-se.

Depois do temporal, galhos e folhas mortas amontoados em torno da casa, eram varridos com piaçava. O sol ressurgia. E a vida tomava seu rumo como se nada tivesse acontecido. 

Os pingos espaçados na calha da varanda dissipam suas memórias. Olha para o sul. A linha rosa no horizonte é sinal de que o tempo firmou. Abre janelas, descobre espelhos, recolhe o sal. Deixa as velas queimando ao pé da santinha.


Antes de limpar as calçadas, espicha os olhos pela casa. No silêncio da sala, o gato faz companhia ao vazio. 


M.Cendón 


foto: Marga Cendón